Prezadas colaboradoras, prezados colaboradores e parceiros do Ecossistema de Impacto Arnone,
Hoje, 18 de agosto de 2026, completam-se oito anos do falecimento de Kofi Annan. Mais do que recordar uma data, gostaria de convidar cada um de vocês para uma breve pausa em meio às nossas agendas, responsabilidades e entregas cotidianas.
Uma pausa para refletirmos sobre o legado de um homem que dedicou a vida à construção da paz, à defesa dos direitos humanos, ao fortalecimento do multilateralismo e à promoção de um modelo de desenvolvimento que fosse capaz de conciliar prosperidade, responsabilidade e dignidade humana.
Talvez esta seja uma boa oportunidade para começarmos com uma pergunta simples: o que a trajetória de Kofi Annan ainda pode nos ensinar sobre a maneira como vivemos, lideramos, trabalhamos e nos relacionamos?
Kofi Annan não foi apenas um dos mais importantes diplomatas de nosso tempo. Foi uma liderança que compreendeu, com rara clareza, que os grandes desafios da humanidade não podem ser enfrentados por governos, empresas, organismos internacionais ou pela sociedade civil de forma isolada. Para ele, a cooperação não era um gesto meramente protocolar. Era uma condição indispensável para a paz, para o desenvolvimento e para a própria capacidade das instituições de responder às necessidades humanas.
Nascido em Kumasi, em Gana, em 1938, Kofi Annan construiu uma extensa trajetória no sistema das Nações Unidas até tornar-se, em 1997, o sétimo Secretário-Geral da ONU. Foi o primeiro homem negro oriundo da África Subsaariana a ocupar o cargo e também o primeiro Secretário-Geral a chegar à liderança da organização depois de desenvolver sua carreira profissional dentro dela.
Durante os dez anos em que esteve à frente das Nações Unidas, de 1997 a 2006, conduziu a organização em um período marcado por conflitos, crises humanitárias, profundas transformações econômicas e novas ameaças à segurança internacional. Sua liderança procurou aproximar as instituições multilaterais das pessoas, especialmente daquelas que se encontravam em situação de vulnerabilidade, submetidas à pobreza, à violência, à discriminação, à fome, às doenças e à ausência de perspectivas.
Kofi Annan compreendia que a paz não poderia ser reduzida à ausência de guerra. Para que fosse duradoura, ela precisaria estar acompanhada de justiça, oportunidades, instituições confiáveis, respeito aos direitos humanos e condições reais para que cada pessoa pudesse viver com dignidade.
Essa compreensão fez com que suas defesas avançassem muito além da diplomacia tradicional. Annan colocou os direitos humanos no centro da atuação internacional, defendeu o Estado de Direito, promoveu o diálogo entre povos e culturas e trabalhou para que o desenvolvimento econômico fosse compreendido em sua relação inseparável com a inclusão social e a proteção ambiental.
Em 2001, Kofi Annan e as Nações Unidas receberam conjuntamente o Prêmio Nobel da Paz, em reconhecimento aos esforços por um mundo mais organizado e pacífico. A premiação não representou apenas o reconhecimento de uma trajetória individual. Simbolizou a importância de uma visão de mundo orientada pela cooperação, pela responsabilidade compartilhada e pela capacidade das instituições de trabalharem para o bem comum.
Seu legado também está diretamente relacionado à evolução da agenda do desenvolvimento sustentável.
Durante sua liderança, foram impulsionados os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que ajudaram a mobilizar governos e instituições internacionais para o enfrentamento coordenado da pobreza, da fome, das desigualdades e de outros desafios sociais. Esse processo abriu caminhos importantes para a posterior construção da Agenda 2030 e dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável.
Foi igualmente sob sua liderança que surgiu o Pacto Global das Nações Unidas, concebido para aproximar o setor privado dos grandes compromissos internacionais relacionados aos direitos humanos, às relações de trabalho, ao meio ambiente e ao combate à corrupção.
Kofi Annan percebeu, antes de muitos, que as empresas não poderiam permanecer alheias aos problemas do mundo. Com capacidade de inovação, recursos, conhecimento e presença nas comunidades, elas precisavam assumir responsabilidades compatíveis com o impacto que exercem sobre a sociedade e o planeta.
Também foi nesse ambiente de mobilização internacional, construído sob sua liderança, que a expressão ESG ganhou forma e projeção. Em 2004, a iniciativa que resultou no relatório “Who Cares Wins” contribuiu para consolidar a integração dos aspectos ambientais, sociais e de governança às decisões empresariais, financeiras e de investimento.
Por isso, quando hoje falamos em ESG, responsabilidade corporativa, governança, integridade, investimento responsável e desenvolvimento sustentável, é fundamental reconhecermos que Kofi Annan esteve entre as lideranças que ajudaram a transformar essas pautas em uma agenda de alcance global.
Mas seu legado não deve ser compreendido apenas como uma coleção de marcos históricos. Ele permanece atual porque nos ajuda a refletir sobre o tipo de liderança de que o mundo precisa.
Kofi Annan demonstrou que firmeza e serenidade não são características opostas. Ensinou que é possível exercer autoridade sem arrogância; liderar sem abandonar a escuta; defender convicções sem fechar as portas ao diálogo; e buscar resultados sem perder de vista os valores que justificam a própria ação.
Essa talvez seja uma das suas maiores fontes de inspiração para todos nós.
Em nosso cotidiano pessoal e profissional, somos constantemente chamados a tomar decisões, administrar interesses, enfrentar divergências, construir consensos e lidar com situações que testam nossa coerência. Nesses momentos, o exemplo de Kofi Annan nos recorda que a forma como fazemos as coisas é tão importante quanto aquilo que pretendemos alcançar.
Resultados consistentes não são construídos apenas com competência técnica. Eles exigem integridade, empatia, responsabilidade, visão de longo prazo e disposição para compreender os impactos de nossas escolhas sobre as outras pessoas.
Essa reflexão possui um significado especial para o Ecossistema de Impacto Arnone.
Nossas diferentes organizações, iniciativas, programas, plataformas e projetos partem da convicção de que o conhecimento precisa gerar transformação; que a atividade empresarial deve produzir valor econômico e impacto positivo; e que a articulação entre Estado, mercado, academia e sociedade civil pode criar respostas mais efetivas para os desafios contemporâneos.
Por meio do Instituto Global ESG, nosso ecossistema mantém uma relação institucional com a Kofi Annan Foundation e com a família Annan, orientada pela preservação e pela promoção, no Brasil, do legado de Kofi Annan.
Essa relação representa, para nós, mais do que uma distinção institucional. É uma responsabilidade.
Ela se traduz em iniciativas estruturadas que procuram manter vivos seus valores, ampliar o conhecimento sobre sua contribuição histórica e reconhecer pessoas e instituições comprometidas com a paz, os direitos humanos, a boa governança, o ESG e o desenvolvimento sustentável.
Entre essas iniciativas está a Medalha “Busumuru” Kofi Atta Annan, honraria autorizada pela família Annan e concedida em parceria com a Kofi Annan Foundation. A comenda reconhece lideranças e instituições cuja atuação contribui concretamente para a implementação dos princípios ESG e para a construção de um desenvolvimento mais justo, responsável e sustentável.
O Salão Nobre Kofi Annan, localizado na sede do Instituto Global ESG, em Brasília, também integra esse trabalho de preservação da memória. Mais do que atribuir um nome a um espaço institucional, buscamos constituir um ambiente permanente de diálogo, convergência, reconhecimento e construção coletiva, inspirado nos valores que orientaram sua vida pública.
O Programa ESG20+, o Movimento Interinstitucional ESG na Prática e as demais frentes articuladas pelo Instituto Global ESG também encontram inspiração nesse legado. Ao propormos uma agenda para os próximos vinte anos do ESG, reafirmamos a necessidade de transformar conceitos em práticas, compromissos em resultados e boas intenções em impactos mensuráveis para a sociedade.
Preservar o legado de Kofi Annan, portanto, não significa apenas olhar para o passado. Significa assumir a responsabilidade de projetar seus valores para o presente e para o futuro.
É nesse ponto que esta mensagem se conecta diretamente com cada colaborador e cada parceiro do nosso ecossistema.
Nem todos os gestos capazes de produzir impacto positivo acontecem em grandes conferências internacionais ou nas principais instâncias de decisão. Muitas transformações começam silenciosamente: na maneira como acolhemos uma pessoa, compartilhamos conhecimento, conduzimos uma reunião, administramos um conflito, cumprimos um compromisso, tratamos nossos colegas ou avaliamos as consequências de uma decisão.
A paz também se constrói nas relações cotidianas.
Os direitos humanos também são protegidos quando respeitamos a dignidade de quem está ao nosso lado.
A governança também se fortalece quando agimos com transparência, coerência e responsabilidade, mesmo quando ninguém está observando.
O desenvolvimento sustentável também avança quando compreendemos que nossas escolhas profissionais, empresariais e pessoais produzem consequências que ultrapassam o momento presente.
Por isso, neste dia de memória, gostaria de convidar cada um de vocês a refletir: que legado estamos construindo por meio do nosso trabalho? Nossas decisões aproximam ou afastam as pessoas? Nossas atividades geram apenas resultados imediatos ou contribuem para algo que permanecerá? Temos conseguido conciliar excelência, humanidade, integridade e responsabilidade?
Não precisamos ter respostas definitivas para todas essas perguntas. O mais importante é não deixarmos de fazê-las.
Kofi Annan nos ensinou que os problemas globais exigem responsabilidade compartilhada. Também nos mostrou que nenhuma instituição e nenhuma liderança são grandes demais para prescindir da cooperação, nem pequenas demais para deixar de produzir impacto.
Ao completarmos oito anos de sua partida, permanecem vivos seus princípios, sua visão e seu exemplo. Cabe a nós transformar essa inspiração em escolhas, atitudes, projetos e resultados que façam sentido para as pessoas e para o mundo que desejamos ajudar a construir.
Que este seja, portanto, um dia de memória, respeito e gratidão, mas também de renovação dos nossos próprios compromissos.
Que possamos continuar trabalhando para que a paz, os direitos humanos, a ética, a boa governança e o desenvolvimento sustentável não sejam apenas temas de nossas agendas, mas valores presentes em nossas relações e em nossa forma de atuar.
E que o legado de Kofi Annan continue nos lembrando de uma verdade essencial: grandes transformações são construídas coletivamente, mas sempre começam pela responsabilidade de cada um de nós.
Atenciosamente,Alexandre ArnoneFundador e Presidente do Instituto Global ESG
Chairman do Grupo Arnone